Tashlich em Rosh Hashaná: quando começou este costume?

MINUTINHO DA HISTÓRIA JUDAICA MODERNA, POREM ANTIGA
Tashlich! Talvez você faça em Rosh Hashaná. Ortodoxos, hareidim, ultra ortodoxos, reformistas, conservadores, liberais e todas as outras designações tem o costume de fazer. Mas qual é a origem deste costume. Um fala emblemática de Tevie, o leiteiro, em Um Violinista no Telhado, quando vem pela estrada conversando com a vaca, diz: “Toda tradição um dia foi novidade”! E isso introduz e espetacular canção Tradition. E é a origem do Tashlich que fomos procurar.

O conceito geral do tashlich é uma “lavagem espiritual” onde os pecados são lançados nas águas e carregados para longe.

E neste caso específico existe a “tradição conforme explicada” e a definição do Tanach, que em minha opinião, explica muito melhor. Só que está nos quatro primeiros versos do livro Vida de Adão e Eva, também conhecido como “Apocalipse de Moisés (Revelação a Moisés) que foi um dos livros tonados apócrifos (removidos) do Tanach entre o ano 90 e 100 EC, pelo sacerdote Yohanan ben-Zakai. Entenda: os 34 livros que foram removidos, foram removidos porque constavam no Tanach. Toda a história de Chanucá, por exemplo está nos livros Macabeus I e II, também removidos, todavia usamos uma parte do texto. Ben-Zakai removeu todos os textos produzidos durante o segundo templo e todos os textos originalmente produzidos em grego, que era a linguagem globalizada do período do Segundo Templo. Alguns dos livros constam em edições de Bíblias católicas e cristãs.

Primeiro vou mostrar as referências aceitas, e depois a minha visão.

tachlich zap 2026 Likud Brasil
Cartão postal fotográfico, impresso com pintura, da Polônia início dos anos 1920

A cerimônia do Tashlich (ou Tashlikh) não se originou do livro apócrifo/pseudoepígrafo conhecido como Vida de Adão e Eva (também chamado Apocalipse de Moisés, Vita Adae et Evae ou Livro de Adão e Eva). Origem real do Tashlich. O Tashlich é um costume relativamente tardio no judaísmo:

A primeira menção clara e documentada aparece no Séfer Maharil (do rabino Yaakov ben Moshe Levi Moelin, conhecido como Maharil, que morreu em 1427). Ele descreve o costume de ir a um rio ou mar no primeiro dia de Rosh Hashanah (após a refeição) e recitar certos versículos.

Observação: contemporaneamente se faz o tachlich no Rio de Janeiro, ainda no escuro da madrugada, para ver o sol nascer, o que é muito bonito, mas já diferente da origem. Não que esteja errado, pois é um costume e não um obrigação. E os costumes são adptados aos tempos e a realidade.

Taschlich deutsch Likud Brasil
Cartão artístico impresso na Alemanha, na primeira década do século 20, remetendo a imigração judaica do Império Russo para os EUA, com o Tashclich sendo feito na margem do Rio Hudson, com a ponte do Brooklyn por trás. Com certeza da Reforma Judaica Alemã com homens e mulheres juntos.

A cerimônia como definida dentro do judaísmo

É um minhag (costume) de origem ashkenazi (comunidades judaicas da Europa Central/Oriental). Não aparece no Talmud, nos Rishonim antigos (Rif, Rambam, Rosh etc.), nem no Shulchan Aruch do Beit Yosef (Rabi Yosef Caro). O Rema (Rabi Moshe Isserles) o menciona ao incorporar costumes ashkenazim.

Só mais tarde, principalmente através da influência do Arizal (século XVI) e da Cabala, o costume se espalhou também para comunidades sefaraditas e orientais.

Fonte bíblica principal: o nome e o sentido vêm diretamente do profeta Mikhayhu (Miqueias) 7:19: “Ele tornará a ter misericórdia de nós; subjugará as nossas iniquidades e lançará (tashlich) todos os nossos pecados nas profundezas do mar.” Motivo tradicional principal (segundo o Maharil e fontes posteriores). Tachlich, significa lançar, em hebraico.

Lembrar o midrash sobre a Akedá (sacrifício de Isaac). Quando Avraham e Yitzchak iam para o Monte Moriá, o Satan se transformou em um rio profundo para impedi-los. Eles entraram na água até o pescoço e oraram, e o rio desapareceu. Como a tradição associa a Akedá a Rosh Hashanah, o costume de ir à água recorda esse mérito e a determinação de cumprir a vontade divina.

Outras explicações tradicionais incluem

Simbolizar o descarte dos pecados (com base em Miqueias).
Lembrar a unção de reis junto a rios (símbolo de continuidade do reinado divino).
Obs: no caso, o batismo nas águas do Jordão era uma das ações judaicas, que nós perdemos ao longo dos tempos, mas mantemos a imersão na Mikve na cerimônia de conversão ao judaísmo e também ser origina desta questão, de purificação espiritual.

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“Cartão” em recorte, típico do início do século 20 nos EUA. Tinha um suporte de papeção atrás para ficar “em pé” sobre uma cômoda ou numa estante.

Sobre o livro apócrifo de Adão e Eva

No Vita Adae et Evae / Apocalipse de Moisés existe, de fato, uma narrativa em que Adão e Eva fazem penitência ficando dentro de rios (Adão no Jordão e Eva no Tigre/Tigris, a mais de 1.000 km um do outro), de pé até o pescoço, como ato de arrependimento após a expulsão do Éden. Há também a lavagem do corpo de Adão no lago Aquerúsio após a morte (na versão grega da Septuaginta). É preciso compreender que a Septuaginta, tradução do Tanach para o grego, “Versão dos 70” escribas judeus de Alexandria é uma tradução judaica e não grega 400 anos anterior a remoção dos 34 livros, portanto o texto é integral até o século 2 AEC, mas acrescido de varias coisas, ou com várias coisas que ainda não tinham sido retiradas por ban-Zakai.

Porém, os sábios judeus consideram que o descrito ali é um ato individual e privado de penitência dos primeiros seres humanos. Não tem nenhuma relação com Rosh Hashanah, com o lançamento simbólico de pecados, com a comunidade, nem com o versículo de Miqueias. Nenhum dos grandes poskim, historiadores do minhag ou estudiosos modernos do Tashlich (Lauterbach, enciclopédias judaicas, fontes rabínicas clássicas etc.) estabelece qualquer conexão entre o costume medieval do Tashlich e esse texto apócrifo.

Mas eu, que sou chato e não sou nenhum estudioso religioso, mas gosto de entender onde as coisas começaram, tenho para mim que o taschlich é algo muito específico do livo removido, que possuía uma contrapartida não removida em Mikhayhu e que no século 15 foi reintroduzida pelo Maharil.

Livro da Vida de Adão e Eva

Capítulo I – O mar de cristal: Deus ordena a Adão, expulso do Éden, que viva na Caverna dos Tesouros.

1 No terceiro dia, Deus plantou o jardim no oriente da terra, na fronteira do mundo para o oriente, além da qual, na direção do nascente do sol, não se encontra nada além de água, que circunda todo o mundo e chega até os confins do céu. (OBS: é daqui que Rashi define que Caim foi para o oriente do Eden, no Chumash)

2 Ao norte do jardim há um mar de águas claras e puras ao paladar, diferente de qualquer outro; de modo que, pela sua transparência, pode-se ver as profundezas da terra.

3 E quando alguém se lava nela, fica limpo da sua limpeza e branco da sua brancura; ainda que fosse moreno. (OBS: aqui temos uma questão metafórica de gramática complicada e tradução pior ainda, introduzida na Septuaginta em grego. A intenção era “ficar com a alma branca, alva, límpida, limpando uma alma pecadora “escura”. Não se trata de transformar fisicamente pessoas de pela escura em pessoas de pele clara).

4 E Deus criou aquele mar por sua própria vontade, porque sabia o que haveria de acontecer ao homem que havia de criar; para que, depois de ele ter saído do jardim, por causa da sua transgressão, nascessem homens na terra. Entre eles há justos que hão de morrer, cujas almas Deus ressuscitará no último dia; quando todos eles voltarão à sua carne, banhar-se-ão nas águas daquele mar e se arrependerão dos seus pecados. (OBS: daqui vem também que Deus ressuscita as almas).

OBS: daqui vem também a Mikve de água doce. Portanto, a questão das águas que limpam e levam os pecados, tanto no caso d Mikve, que é com imersão, como o caso do Tachlich, onde não há imersão, estão consubstanciadas nos quatro primeiros versos de um livro que pertencia ao Tanach e foi removido no século 1 EC.

Por José Roitberg – jornalista e pesquisador

Imagens: todos os raros cartões postais tiveram suas cores corrigidas para remover o desgaste do tempo, tentando obter o mais próximo possível do original. No caso do primeiro cartão dentro do texto, ele é uma combinação de 3 exemplares, aparentemente os únicos existentes, cada um rasgado e estragado em um ponto diferente, o que permitiu uma reconstrução precisa.

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