O Caso do Navio Altalena (junho de 1948)

Introdução

No dia 24 de agosto de 2026 o Altalena foi finalmente localizado a 500 metros de profundidade, no Mediterrâneo, a 20 km do litoral israelense. É um marco de encerramento de uma história muito ruim, tão antiga quanto o Estado de Israel. Uma história onde a esquerda judaica socialista, fundadora de Israel mandou disparar canhões e metralhadoras contra direita judaica.

Provavelmente a maioria das pessoas não sabe do que se trata aquele momento histórico, até porque ele, como vários outros, foram varridos ou da história dos judeus ou da história de Israel ao longo de todos os governos dos trabalhistas da esquerda judaica em Israel. Só que a revisão histórica e remoção de fatos ou participantes de eventos históricos é uma característica habitual de qualquer governo de esquerda.

Reunimos aqui, a versão mais completa possível incluindo análises do papel de Ytzhack Rabin, Ygal Alon e Menahem Begin naquele episódio. Você também irá saber exatamente o que aconteceu na parte bem sucedida da missão do Altalena e quem foi o capitão do navio. Tudo que as escolas judaicas e movimentos juvenis judaicos deveriam ensinar, mas não ensinam, talvez porque professores, diretores e madrichim também desconheçam.

Begin era o lider do “sionismo revisionista”. De uns 35 anos para cá, o termo “revisionista” passou a ter conotação negativa, como “revisionismo do Holocausto”, clamando que os judeus não foram mortos pela Alemanha Nazistas e pelos aliados dela. Mas “sionismo revisionista” significa, tão somente, um vertente da direita judaica, de Trumpeldor, Jabotisnky e Begin, que pregava o retorno aos valores sionistas políticos propostos por Theodor Hertzl, sem as alterações que foram incorporadas pelos socialistas e comunistas judeus na formação do Estado de Israel. Seria o sionismo raiz.

O episódio do navio Altalena é um dos momentos mais dramáticos e controversos dos primeiros dias do Estado de Israel. Ocorreu em plena Guerra de Independência (iniciada em 16/mai/1948), durante o primeiro cessar-fogo mediado pela ONU (iniciado em 11 de junho de 1948), e envolveu o confronto armado entre o Irgun (Etzel – Organização Militar Nacional na Terra de Israel), organização paramilitar sionista-revisionista liderada por Menachem Begin, e as forças do recém-criado Exército de Defesa de Israel (IDF), sob a autoridade do governo provisório de David Ben-Gurion. O conflito resultou na morte de dezenas de judeus por mãos de outros judeus e na perda de um carregamento de armas vital, deixando marcas profundas na memória coletiva israelense.

altalena 2 Likud Brasil
Esta é a única foto que existe do Altalena antes da viagem, provavelmente ainda antes de ser carregado, ao largo do porto de Marselha, no sul da França. Só nesta foto é possível ver o nome da embarcação, um LVT americano de desembarque de tropas, do tipo utilizado na Campanha do Pacífico e no Dia D, na Normandia.

Contexto e a viagem

O Altalena era um antigo Navio de Desembarque (Landing Ship Tank – LST) americano da Segunda Guerra Mundial, adquirido pelo Irgun e rebatizado com o pseudônimo italiano de Ze’ev Jabotinsky. “Altalena”. Partiu de Port-de-Bouc, na França, em 11 de junho de 1948, carregando cerca de 900 a 940 voluntários para a guerra (muitos sobreviventes do Holocausto, incluindo mulheres) e um importante arsenal: aproximadamente 5.000 rifles, centenas de metralhadoras Bren e outras, milhões de cartuchos, bazucas, morteiros e outros equipamentos.

Embora o Irgun já tivesse assinado um acordo de integração de suas unidades nas FDI (1º de junho), a viagem se deu em violação ao embargo de armas do cessar-fogo da ONU. Begin informou o governo da chegada iminente e negociou. O Irgun propunha que parte das armas (cerca de 20%) fosse destinada a suas unidades em Jerusalém (ainda sob status especial) e que os combatentes se alistassem já equipados. Ben-Gurion e o governo insistiram na entrega integral às FDI, sob o princípio de “um Estado, um exército”, vendo qualquer retenção como ameaça à autoridade soberana do Estado.

O primeiro desembarque em Kfar Vitkin

Por instrução do governo (para evitar observadores da ONU no porto de Tel Aviv), o navio foi direcionado à costa de Kfar Vitkin, moshav ao norte de Tel Aviv (próximo a Netanya). Chegou no final da tarde de 20 de junho de 1948. Menachem Begin e membros do Irgun aguardavam na praia. Os passageiros desembarcaram e foram encaminhados para alistamento; parte significativa das armas (cerca de 2.000 rifles, milhões de munições e outras peças, segundo várias contas) foi descarregada. (OBS: isso nunca contam nos artigos sobre o Altalena)

No dia seguinte, a Brigada Alexandroni das FDI sob o comando de Dan Even, cercou a área e emitiu um ultimato para a entrega imediata de todo o armamento restante. As negociações fracassaram. Houve troca de tiros na praia: forças do Irgun tentaram romper o cerco ou proteger o desembarque. Resultado: seis combatentes do Irgun e dois soldados do IDF mortos (números próximos em diversas fontes; algumas mencionam quatro do Irgun e dois do IDF no confronto principal). Houve também combates secundários, inclusive perto de Beit Dagan, envolvendo membros do Irgun que tentavam se deslocar ou desertavam temporariamente de unidades das FDI para apoiar os camaradas.

Para evitar mais derramamento de sangue, colonos de Kfar Vitkin mediaram um cessar-fogo. Parte das armas em terra foi transferida ao comandante local das FDI. Begin embarcou no Altalena, que zarpou para o sul, perseguido por corvetas da Marinha israelense, em direção a Tel Aviv, onde o Irgun esperava maior apoio popular e possibilidade de negociação direta.

altalena 3 Menachem Begin left inspecting members of the Irgun in Jerusalem August 1948 Likud Brasil
Não existe qualquer imagem conhecida dos combates em terra no episódio do Altalena, nem dos feridos dos dois lados. A foto com marco temporal conhecido mais próxima é esta, de Menahem Begin passando em revista soldados do Irgun em agosto de 1948, pouco mais de um mês após o Altalena. Vemos no chão um morteiro leve e uma metralhadora alemã MG 34 (considerada a primeira metralhadora moderna de uso geral, que entrou em produção em 1934). Os dois primeiros soldados estão com submetralhadoras Sten, inglesas. A Palmach e depois as FDI utilizaram muitos armamentos alemães da WW2 que podiam ser comprados a preços muito baixos e em quantidade, principalmente fornecidos pela Tchecoslováquia, dos armamentos apreendidos ao final da WW2.

Os combates em terra e no mar em Tel Aviv

Na madrugada de 21 para 22 de junho, o Altalena encalhou a cerca de 100–150 metros da praia de Tel Aviv, próximo à Rua Frishman e ao Hotel Kaete Dan (hoje área do Dan Tel Aviv), em frente ao quartel-general do Palmach no Hotel Ritz. Começou o desembarque de armas restantes com botes, enquanto combatentes do Irgun se reuniam na praia. Houve intensos combates terrestres: tiroteios entre forças do Irgun e unidades das FDI/Palmach (com participação de comandantes como Yigal Allon e Yitzhak Rabin na área). O Irgun tentou armar homens em terra e avançar; o IDF cercou e reforçou a posição. Houve troca de fogo envolvendo até PIAT (arma antitanque britânica) e granadas de mão, com baixas de ambos os lados.

Ben-Gurion ordenou a tomada do navio pela força. À tarde de 22 de junho (cerca das 16h), foi autorizado o uso de artilharia. Um canhão (depois chamado de “canhão sagrado” por Ben-Gurion) atingiu o Altalena, que pegou fogo. O capitão Monroe Fein ordenou o abandono do navio diante do risco de explosão das munições nos porões. Begin, a bordo, ordenou que seus homens não revidassem para impedir uma guerra civil. Apesar da bandeira branca de rendição, há relatos de tiros continuados contra sobreviventes na água. O navio ardeu e as explosões destruíram grande parte do carregamento restante.

No total do episódio (Kfar Vitkin + Tel Aviv), as baixas mais citadas são 16 combatentes do Irgun mortos (seis em Kfar Vitkin e dez em Tel Aviv) e três soldados do IDF, além de dezenas de feridos. Algumas fontes elevam ligeiramente os números.

altalena 4 Likud Brasil
Foto emblemática do Altalena em chamas, provavelmente depois de ter sido completamente abandonado. Esta e a principal do artigo foram colorizadas pelo autor

A remoção do navio

O Altalena foi posteriormente rebocado e afundado ao largo. A maior parte das armas se perdeu. O Irgun foi plenamente absorvido pelo IDF; Begin enfatizou que sua maior conquista foi ter impedido a guerra fratricida (“não haverá guerra civil enquanto o inimigo estiver às portas”). Ben-Gurion justificou a ação como defesa da soberania do Estado nascente e da unidade do exército.

O caso permanece polarizador: para muitos no campo revisionista/direita, foi um ato trágico e desnecessário de “judeus atirando em judeus” que desperdiçou armas essenciais; para outros, foi a afirmação necessária da autoridade estatal contra milícias independentes. Ele ilustra as tensões da transição de Yishuv para Estado moderno e continua a ser invocado em debates políticos israelenses sobre unidade, autoridade e memória histórica.

Em 2026, restos do navio foram localizados no fundo do mar, reavivando discussões públicas sobre o episódio. Um bom momento para escrever a história completa, como estamos fazendo.

O Altalena não foi apenas um navio de armas: foi o cenário de um teste decisivo sobre o que significava a soberania de Israel nos seus primeiros dias.

Análise do papel de Yitzhak Rabin no Caso Altalena (junho de 1948)

Yitzhak Rabin, então um jovem oficial do Palmach (com cerca de 26 anos), desempenhou um papel operacional significativo, embora não decisivo no nível político-estratégico, nos combates de Tel Aviv. Sua atuação ocorreu sob a cadeia de comando que incluía Yigal Allon (comandante do Palmach e responsável pela operação maior) e as ordens diretas de David Ben-Gurion. O episódio tornou-se um dos mais evocados em sua biografia militar e política, frequentemente polarizado conforme a narrativa ideológica.

Contexto da presença de Rabin

YitzhakRabin1948 Likud Brasil
1948 Tenente-Coronel Rabin

Rabin não planejou a operação desde o início nem esteve em Kfar Vitkin. Ele chegou à cena em Tel Aviv de forma relativamente casual: encontrava-se nas proximidades do quartel-general do Palmach, instalado no Hotel Ritz (próximo à praia onde o Altalena encalhou, na altura da Rua Frishman / Hotel Kaete Dan). Como oficial sênior presente no local, sua patente era de tenente-coronel, assumiu o comando da defesa do QG e das forças na praia diante da concentração de combatentes do Irgun e das tentativas de desembarque de armas.

As forças sob sua responsabilidade enfrentaram tiroteios intensos em terra. Relatos (incluindo os de Rabin) descrevem o Irgun disparando um projétil PIAT (antitanque leve) contra o QG do Palmach, o que levou os comandantes — liderados por ele — a responder com granadas do telhado para impedir a invasão do prédio. Houve trocas de fogo pesadas entre as forças em terra e o navio. Rabin descreveu o episódio em suas memórias com a expressão que se tornou emblemática: “judeus atirando em judeus”.

Relação com o bombardeio do navio

A ordem geral de tomar o Altalena pela força e, subsequentemente, de bombardeá-lo partiu de Ben-Gurion (via o chefe do Estado-Maior interino Yigael Yadin). Yigal Allon supervisionou a operação em Tel Aviv e ordenou o posicionamento do canhão de campanha (o famoso “canhão sagrado” ou “holy cannon”, como Ben-Gurion o chamaria depois).

Fontes divergem sobre o grau exato de envolvimento de Rabin no disparo do canhão e etende-se que existia apenas um canhão:

– Muitas narrativas (especialmente da direita e algumas biografias) afirmam que as forças na praia estavam sob seu comando setorial, que ele estava presente na área do canhão e que deu ou transmitiu a ordem de disparo (o primeiro projétil errou; o segundo atingiu o navio, iniciando o incêndio). Alguns relatos mencionam que um subordinado se recusou inicialmente e só obedeceu sob ameaça.

– Análises mais detalhadas e memórias de envolvidos indicam que o papel de Rabin se concentrou principalmente nos combates terrestres e na defesa do QG. Ele não teria operado diretamente o canhão; sua responsabilidade era operacional local. Ele próprio afirmou ter ordenado a cessação dos tiros depois que o navio foi atingido e pegou fogo, e tentou (sem sucesso total) controlar o fogo indiscriminado.

– Existe ainda uma terceira narrativa: teria sido ordenado o disparo de um tiro de aviso, sem a intenção de atingir o navio e esse teria sido o primeiro tiro que “errou o alvo”. O segundo disparo também teria sido ordenado ser de aviso, mas o canhão poderia ser uma unidade muito usada e com cano desgastado durante a Segunda Guerra Mundial, com pouca precisão e o impacto “preciso” no Altalena poderia ter sido acidental.

Após o impacto, o navio incendiou-se, a munição começou a explodir e os ocupantes (incluindo Begin) abandonaram a embarcação. Há controvérsias sobre se o fogo continuou contra sobreviventes na água apesar da bandeira branca.

Perspectiva de Rabin

Rabin executou ordens superiores em um contexto em que o governo via a recusa do Irgun em entregar integralmente as armas como desafio à soberania do Estado recém-criado e risco da existência de “exército privado”. Em memórias e entrevistas posteriores, ele declarou estar em paz com a ordem de Ben-Gurion, justificando-a pela necessidade de um único exército. Ao mesmo tempo, chamou o dia de “o mais negro” de sua vida e reconheceu o trauma de “judeus atirando em judeus”.

O episódio foi usado politicamente décadas depois:

– Narrativas de direita frequentemente o destacam como comandante responsável pelo “massacre” ou bombardeio, às vezes exagerando seu papel para personificar a ação do establishment trabalhista/Palmach.

– Outras leituras enfatizam que ele era um “oficial júnior” cumprindo ordens em situação de crise, com responsabilidade limitada ao teatro de operações em terra, enquanto as decisões estratégicas cabiam a Ben-Gurion e Allon. Essa narrativa é muito curiosa e tenta remover a responsabilidade de um tenente-coronel, um oficial superior “que só cumpria ordens”, muito típico do pensamento de Hanna Arendt (A Banalidade do Mal, 1964), onde a filósofa comunista judia banalizou o Holocausto… Incidentalmente Adolf Eichmann que Arendt defendeu como “subalterno” que só cumpria ordens, era também um tenente-coronel da SS, durante o Holocausto, chefe do departamento de transporte de judeus para o extermínio: ele cumpria diretrizes e emitia ordens, ao contrario do Arendt publicou.

Em resumo, Rabin foi o comandante operacional imediato das forças do Palmach/IFDO na praia de Tel Aviv: liderou a defesa do QG, os combates terrestres e a contenção dos homens do Irgun. Sua ligação com o canhão que atingiu o Altalena é citada em muitas fontes, mas o grau de responsabilidade direta no disparo permanece objeto de disputa historiográfica. O evento marcou-o profundamente e tornou-se um símbolo recorrente das tensões internas do nascente Estado de Israel.

Detalhes do comando de Yigal Allon no Caso Altalena

altalena Yigal Allon 1948 Likud Brasil
1948 Comandante em Chefe da Palmach, Ygal Allon

Yigal Allon (então comandante do Palmach e oficial sênior do recém-formado IDF) exerceu o comando operacional principal das forças governamentais na fase de Tel Aviv do episódio, em 22 de junho de 1948. Ele atuou sob as ordens políticas de David Ben-Gurion e a direção do Estado-Maior (Yigael Yadin como chefe de operações/chefe interino). Sua atuação foi decisiva na organização da resposta militar e na execução do bombardeio.

Chegada e estabelecimento do comando

Após os confrontos iniciais na praia de Tel Aviv (onde o Altalena encalhou perto da Rua Frishman / Hotel Kaete Dan, em frente ao QG do Palmach no Hotel Ritz), Allon chegou ao local e assumiu o comando da batalha. Ele estabeleceu seu posto de comando no Camp Yona (hoje área dos jardins do Hotel Hilton).

Allon mobilizou reforços de várias brigadas — incluindo Yiftach, Carmeli e Negev — porque parte dos soldados presentes se recusou a participar da operação contra o Irgun (codinome “Purge” / “Tihur”). Ele reforçou o cerco, impôs toque de recolher em partes de Tel Aviv e coordenou as forças terrestres contra os combatentes do Irgun que tentavam desembarcar armas, reforçar os homens na praia ou atacar o QG do Palmach.

Ordens e o canhão

Allon emitiu ultimatos exigindo a rendição incondicional do Altalena e a entrega das armas. Quando estes expiraram, e sob a ordem superior de Ben-Gurion (transmitida via Yadin), ele autorizou o uso de artilharia.

Fontes consistentes indicam que:

– Allon ordenou o posicionamento e o emprego do canhão de campanha (o “canhão sagrado” ou “holy cannon”).

– Yitzhak Rabin, oficial sob seu comando (ligado à Brigada Harel ou às forças locais do Palmach), esteve envolvido na área operacional e nos combates terrestres; algumas narrativas o associam mais diretamente ao setor do canhão.

– Relatos (incluindo testemunhos atribuídos a Allon) afirmam que ele pediu a ordem de abrir fogo por escrito antes de autorizá-la, como forma de garantir cobertura formal. O segundo projétil atingiu o navio, provocando o incêndio que se espalhou para os porões de munição.

Durante os combates, as forças sob sua responsabilidade responderam a tiros do navio e a tentativas de assalto ao QG (incluindo o uso de PIAT pelo Irgun), com troca intensa de fogo em terra e granadas.

Papel na cadeia de comando e significado

Allon não tomou a decisão política de atacar o navio — essa foi de Ben-Gurion e do gabinete, que viam a recusa do Irgun em entregar integralmente o armamento como desafio à soberania e risco de dualidade de forças armadas. Seu papel foi o de comandante de campo: organizar as tropas, conter a situação em Tel Aviv (onde havia risco real de expansão para guerra civil urbana), coordenar reforços e executar o bombardeio após as ordens superiores.

Após o episódio, Allon continuou sua carreira militar de destaque (incluindo o comando da frente sul na Guerra de Independência) e, mais tarde, carreira política. Décadas depois, Menachem Begin (seu adversário na ocasião) referiu-se a ele de forma respeitosa em correspondência privada, reconhecendo-o como “rival e amigo”.

Ygal Allon foi membro do Knesset em seis ocasiões, vice-primeiro-ministro entre 1968 e 1974. Após a morte do primeiro-ministro Levy Eshkol, Allon foi primeiro-ministro interino por 19 dias, até Golda Meir assumir o cargo. Ele também foi ministro do trabalho, da absorção de imigrantes, da educação e cultura e das relações exteriores. Foi ministro em Israel de 1961 a 1977.

Em síntese, Allon foi o oficial que transformou a ordem política de Ben-Gurion em ação militar concreta na praia de Tel Aviv: assumiu o comando, reforçou as tropas, controlou o teatro de operações e autorizou o fogo de artilharia que selou o destino do Altalena. Seu desempenho ilustra a transição do Palmach para a estrutura unificada do IDF e a prioridade dada à autoridade estatal centralizada nos primeiros dias de Israel.

Rabin esteve no primeiro escalão do governo por muito tempo. Entre 1974 e 1975 foi ministro do trabalho, das comunicações e do bem estar social. De 1984 a 1995, foi ministro da defesa por duas vezes (9 anos no total), do trabalho, do bem estar social, de assuntos de Jerusalém, assuntos religioso, assuntos internos, educação e cultura, e saúde, várias vezes acumulando mais de uma pastam inclusive durante o mandato de primeiro-ministro após a queda de Golda Meir e entre 1992 e 1995. Foi assassinado com dois tiros pelas costas a queima-roupa, no trajeto de 5 passos entre a escada e seu carro, na saída de um evento em praça pública em apoio aos Acordos de Oslo.

Poucas pessoas sabem que Rabin foi embaixador nos EUA de 1968 a 1972, exatamente quando os EUA passam a alinhar com Israel, após a URSS romper relações diplomáticas com o Estado Judeu. Portanto, Rabin teve um papel fundamental na criação do laço entre Israel e EUA, e em tornar os EUA o principal fornecedor de armamentos para Israel.

O papel de Menachem Begin no Caso Altalena (junho de 1948)

Menachem Begin, comandante do Irgun (Etzel), foi a figura central do lado revisionista no episódio. Sua atuação combinou negociação política, presença física nos locais dos confrontos e, sobretudo, a decisão deliberada de não revidar o fogo para impedir uma guerra civil entre judeus em plena Guerra de Independência. Ele próprio considerou essa escolha a sua maior conquista na ocasião.

Antecedentes e negociações

O Altalena partiu da França em 11 de junho de 1948 (já durante o primeiro cessar-fogo da ONU) sem autorização prévia plena de Begin — a decisão partiu principalmente dos representantes do Irgun na Europa. Begin soube da viagem por uma transmissão da BBC e imediatamente informou o governo provisório.

Ele se reuniu com representantes do governo (incluindo Israel Galili) e propôs:

– Entregar a maior parte das armas ao IDF.

– Reservar cerca de 20% para as unidades do Irgun em Jerusalém (ainda sob status especial da ONU e com estruturas milicianas separadas).

– Permitir que os combatentes do Irgun se alistassem no IDF já equipados.

Ben-Gurion e o gabinete rejeitaram qualquer retenção de armas por uma organização à parte, insistindo na entrega integral sob o princípio de “um Estado, um exército”. As negociações falharam.

Em Kfar Vitkin (20–21 de junho)

Begin estava na praia quando o navio chegou. Recebeu os passageiros e combatentes com emoção. Quando a Brigada Alexandroni cercou a área e emitiu o ultimato de entrega total das armas, houve troca de tiros. Begin embarcou no Altalena e ordenou que o navio zapasse para Tel Aviv, onde esperava maior apoio popular e possibilidade de diálogo direto com o governo.

Em Tel Aviv (22 de junho)

O navio encalhou perto da Rua Frishman. Begin estava a bordo durante os combates terrestres e o bombardeio. Ele:

Ordenou expressamente aos seus homens que não revidassem o fogo, mesmo sob ataque (“Não haverá guerra civil enquanto o inimigo estiver às portas”).

– Permaneceu no navio em chamas até que os feridos fossem evacuados.

– Só então deixou a embarcação.

À noite, fez um longo discurso na rádio do Irgun em que criticou duramente Ben-Gurion (acusando-o de tentar matá-lo), mas reiterou a ordem de contenção e a recusa à guerra fratricida.

Avaliação

Do ponto de vista de Begin e de seus partidários, ele tentou negociar de boa-fé, trouxe armas necessárias ao esforço de guerra e, no momento crítico, privilegiou a unidade nacional em detrimento da vingança ou da preservação do prestígio do Irgun. Do ponto de vista do governo, sua insistência em reter parte das armas e a própria chegada do navio durante o embargo representavam um desafio à soberania do Estado nascente.

Após o episódio, o Irgun foi plenamente absorvido pelas FDI. Begin transformou a memória do Altalena em símbolo de contenção e lealdade ao povo judeu acima das divisões internas. Décadas depois, como primeiro-ministro, manteve uma relação complexa, mas respeitosa, com figuras do outro lado (como Yigal Allon).

Begin foi o líder político e militar do Irgun que negociou, esteve presente nos dois cenários de confronto (Kfar Vitkin e Tel Aviv), embarcou no navio sob fogo e, acima de tudo, impediu a escalada para guerra civil ao proibir a retaliação. Essa decisão continua a ser vista por muitos como o ponto alto de sua liderança no momento fundacional de Israel.

Begin foi o líder da oposição no Knesset de 1955 a 1967 e de 1970 a 1977, quando passou a primeiro-ministro, cargo que manteve até 1983. Foi ministro no gabinete do primeiro-ministro (um cargo especial) de 1967 a 1970, e ministro da defesa por duas vezes. Em 1978 assina o Acordo de Camp David, com o Egito e no ano seguinte o acordo de paz. É fundamental saber que o primeiro acordo de paz entre Israel e um país árabe foi feito pela direita judaica!

altalena 5 robert capa 1913 1954 the altalen Likud Brasil
Esta foto não foi colorizada, intencionalmente. Porque é de Robert Cappa, um dos maiores fotógrafos de combate desde a Guerra Civil Espanhola. Ele estava em Tel Aviv, na cobertura da guerra, ouviu os disparos na praia e correu para lá. Fez algumas fotos, mas, quando chegou, o navio já estava em chamas. São dele as fotos com tripulantes na água. Sim, havia stand-up paddle em Tel Aviv. Agora você já sabe por que existem poucas pessoas na água, por que houve poucos feridos no ataque ao navio: porque os 930 voluntários haviam desembarcado antes, em Kfar Vitkin.

O canhão do Caso Altalena

Não há consenso absoluto e documentação pública detalhada sobre o calibre exato e o modelo preciso do canhão que atingiu o Altalena em 22 de junho de 1948. As fontes históricas contemporâneas e posteriores referem-se a ele de forma genérica como “canhão” (totach), “canhão de campanha” (field gun), “peça de artilharia” ou “canhões pesados” transferidos para a área da praia de Tel Aviv (Camp Yona / região do atual Hilton). Provavelmente não era um canhão (que faz tiro direto) e sim um obuseiro (pode fazer tiro direto e parabólico).

O que se sabe com segurança

– Foi uma peça de artilharia de campanha do inventário disponível ao IDF/Palmach no início da Guerra de Independência.

– O disparo decisivo ocorreu por volta das 16h. O primeiro projétil errou; o segundo atingiu o navio (provavelmente um porão ou depósito de munições/explosivos), provocando o incêndio que se espalhou rapidamente.

– Ben-Gurion referiu-se a ele de forma célebre como o “canhão abençoado” ou “canhão sagrado” (ha-totach ha-kadosh), afirmando que merecia lugar no Templo se este fosse reconstruído.

– A ordem de emprego da artilharia passou pela cadeia Ben-Gurion → Yigael Yadin → Yigal Allon (comandante operacional em Tel Aviv) → comandante de artilharia (mencionado como Shmuel Admon em algumas fontes hebraicas) e as forças locais.

Era apenas um canhão?

Não exatamente.

– Um canhão principal (ou a peça que efetuou o tiro decisivo) é o que ficou na memória e é hoje chamado de “canhão sagrado”.

– Fontes mencionam que “canhões pesados” (heavy guns) foram deslocados para a praia e posicionados. Houve também fogo de morteiros em alguns relatos, além do intenso tiro de armas leves, metralhadoras e o fogo das corvetas da Marinha (principalmente metralhadoras de 20 mm).

– Pela história da Guerra da Independência se sabe que naquele momento a Palmach possuia apenas 5 canhões de campanha, 3 de 65 mm de modelo anterior à Primeira Guerra Mundial e 2 de 75 mm. Estas são armas “leves” e não “canhões pesados”. Talvez na visão das pessoas de 1948, como os de 75 mm eram os maiores em posse, então eram “os pesados”.
– Detalhes técnicos mais finos (calibre e modelo exatos) não são publicamente estabelecidos de forma definitiva, coisa que não faz sentido.

– O impacto que incendiou o navio veio de um único projétil de artilharia de campanha.

Situação atual da peça de artilharia

As FDI possuem hoje dois canhões idênticos da mesma época e modelo. Um estava (ou está) exposto na base das escolas de comando em Glilot (Camp Dayan / PO”M); o outro em outra instalação. Autoridades militares declararam oficialmente que não é possível determinar com certeza absoluta qual dos dois foi o que disparou contra o Altalena. Há discussões políticas recentes (2025) sobre transferir o “canhão sagrado” para o Centro de Herança Menachem Begin, mas a identificação precisa permanece incerta.

Emmanuel Monroe Fein, um capitão esquecido

967 Emmanuel Monroe Fein Likud Brasil

Nascido em 1923. Serviu como oficial na Marinha dos EUA durante a campanha do Pacífico. Foi capitão do “Altalena” em nome do Irgun em 1948. Ao se iniciar a 2ª Guerra Mundial Monroe paralisou seus estudos acadêmicos e se alistou na Marinha. Fez o curso de oficiais e foi nomeado comandante de um navio de transporte da Marinha, que, entre outras ações, participou da invasão das Ilhas Marshall. Mais tarde, durante a guerra, ele foi servir em outro navio que transportava aviões e participou do ataque à Japão. Faleceu em 1982.

Após o fim da guerra, Fein foi dispensado da Marinha dos EUA em 1946 na patente de tenente. Ele voltou para Chicago e encontrou trabalho como gerente de escritório de uma editora na cidade.

Em Chicago, Fein pediu demissão do seu trabalho e se ofereceu para ajudar a causa sionista. Ele conheceu o representante do Irgun, Avraham Stavsky, e foi nomeado capitão do Altalena em nome do Irgun, desde seu ponto de partida em Port-de-Bouc, França, até o recém-formado estado de Israel em junho de 1948.

altelena memorial Likud Brasil
Memorial na praia de Tel Aviv colocado após a direita judaica assumir o controle do governo de Israel. Inscrição – “No dia 21 de junho de 1948 o navio de carga de armas IZL (Etzel) Altalena, ancorado neste litoral, foi bombardeado por ordens do governo provisório de Israel. Ele transportava 930 passageiros que vieram combater na guerra contra os exércitos árabes invasores. Algumas das armas recuperadas foram utilizadas pelo exército de Israel durante a Guerra da Independência.”

Por José Roitberg – jornalista e pesquisador

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