MINUTINHO DA HISTÓRIA JUDAICA MODERNA – SUCOT
Esta foto colorizada é da rua Seppl (apelido tradicional em alemão para o nome Josef) na área residencial da cidade de Ivanovo, no Império Russo em 1916. Fica a nordeste de Moscou e sempre foi uma cidade pequena, hoje com cerca de 400 mil habitantes. O cartão postal foi publicado na Alemanha, não existe a mínima possibilidade de saber que rua era esta, na verdade. Talvez a legenda em alemão tenha sido criativa.
1916 é plena Primeira Guerra Mundial, pouco antes de começar a Revolução Comunista. Pelos últimos 50 anos a cidade era considerada o centro da industria têxtil da Rússia, como Lodz, da Polônia, era o centro da indústria textil da Europa continental. Em ordem, vinham Manchester, Lodz e Ivanovo.
Você já percebeu que estas casas à direita são diferentes. São casas de judeus. Pelo frio da região sujeita a muita neve, criaram um teto móvel para montar a Sucá dentro de casa. Então, em Sucot se abria o teto das casas. Esta é a única foto que conhecida sobre este tipo de arquitetura.
Vamos aproveitar e conhecer um pouco sobre a história dos judeus em Ivanovo, que é bem curta
Ivanovo fica fora do Pale (Zona de Residência – Cherta Osedlosti) criado em 1795 para assentamento de judeus do Mar Báltico à Crimeia. Portanto, em princípio, era uma áreaproibida aos judeus. Nessa área restrita, os judeus só podiam residir permanentemente se pertencessem a categorias autorizadas por lei: comerciantes das primeiras e segundas guildas, artesãos com passaporte profissional válido, médicos, dentistas, farmacêuticos e certas outras profissões especializadas.
As primeiras menções estatísticas de judeus no local datam de meados do século XIX. Em 1873, o comitê estatístico provincial registrava 93 pessoas de fé judaica (41 homens e 52 mulheres). O número oscilou pouco nas décadas seguintes: cerca de 73 em 1883, 78 em 1891 e 159 segundo o censo imperial de 1897. No início do século XX, a comunidade cresceu: cerca de 193 em 1901 e aproximadamente 403 em 1903. Muitos vinham de províncias bielorrussas e outras áreas da Zona de Residência. Durante a Primeira Guerra Mundial, o influxo de refugiados das regiões ocidentais elevou o contingente para cerca de 400 pessoas; no final de 1915, chegaram cerca de 100 refugiados judeus (dados oficias do censo de Ivanovo).
A vida econômica era severamente regulada. As profissões predominantes para os judeus eram as de relojoeiro, farmacêutico e alfaiate. Era proibido mudar de ofício ou vender produtos que não fossem de fabricação própria; a posse de artigos “estranhos” (como galanteria – artigos finos de moda, acessórios de vestuário e miudezas elegantes – em uma loja de relógios) podia resultar em expulsão da cidade. Muitos artesãos usavam nomes de fachada para manter lojas. A polícia mantinha os judeus sob supervisão especial, exigindo registros regulares. Casos como o dos irmãos Shinkarev (tintureiros nascidos localmente sem o documento exigido) ilustram as dificuldades: em 1911 enfrentaram processo de expulsão e só permaneceram após se converterem ao luteranismo. Isso é algo que precisa sempre ser dito. Para toda a Europa do Século 19 e início do 20, se o judeu se convertesse a uma das linhas católicas, ele se tornava “livre” e um cidadão como qualquer outro.
Apesar das restrições imperiais, formou-se uma pequena comunidade. No final do século XIX funcionava uma sinagoga oficialmente autorizada (e apenas uma). Em 1915 foi aberto um cemitério judaico (mais tarde destruído e com edificações sobre ele no período soviético). Também no periodo soviético, o nome de todas as ruas foi modificado. A comunidade judaica era descrita como apolítica; não se conhecem revolucionários judeus locais, embora a cidade fosse um centro de agitação operária.
Assim, entre 1850 e 1918, os judeus de Ivanovo-Voznesensk formaram uma minoria pequena, economicamente ativa em ofícios especializados, mas constantemente limitada pelas leis imperiais de residência e pela vigilância policial, vivendo à margem do grande centro têxtil russo até as mudanças revolucionárias de 1917. Foi política total do Império Russo, restringir completamente o acesso à Revolução Industrial para os judeus, através de sua não educação e matemática, ciências, história e até mesmo na língua russa, além da proibição de moradia nas cidades onde estavam sendo implantadas indústrias.
Isso fez com que uma grande massa de judeus apoiasse a Revolução Comunista, a Revolução do Proletariado (empregados de fábricas), na esperança de se tornarem iguais a todos os outros na sociedade, o que foi um ledo engano.
Quando quiserem imaginar como eram os “shtetels”, as aldeias judaicas no Império Russo, era basicamente isso aí: céu e lama. Note que há uma vala de canalização, não sabemos se de água ou esgoto, bem na frente das casas. Lado ruim da rua, e lado bom da rua…
Por José Roitberg – jornalista e pesquisador







