Esta foto de 1880 é a única conhecida deste ângulo do Kotel, em Jerusalém. O fotógrafo francês Felix Bonfils (1831-1885), que fotografou dezenas de chapas sobre Jerusalém e outros pontos da região, precisou subir sobre o telhado que havia do lado esquerdo. Ainda bem que os policiais turco otomanos permitiram. A importância histórica desta foto, que eu colorizei, é permitir que as pessoas entendam qual era a largura do corredor permitido aos judeus durante mais de 560 anos, desde que o Império Turco Otomano, muçulmano sunita não árabe passou a controlar praticamente todo o Oriente Médio.
Existem vários mitos sobre este corredor. Algumas pessoas que veem homens judeus e mulheres judias juntos, imaginam, ou foram ensinados, que isso se tratou de uma “punição” turca aos judeus, não pretendendo aceitar que antes as coisas eram diferentes. Pelo que sabemos, historicamente sobre as leis turco otomanas em relação aos judeus, inclusive na regulamentação da prostituição em Istambul (muçulmana, católica e judaica), é que o Império não se importava com que os judeus fizessem, desde que pagassem seus impostos adicionais por não serem muçulmanos. Não havia leis contra os judeus. Portanto, não houve punição a homens judeus obrigados a estarem juntos com mulheres judias no Kotel. Outro mito, tem um fundo de verdade. O corredor foi sim usado como depósito de lixo, mas ANTES dos turco otomanos dominarem a cidade.
Durante o período otomano (a partir do século XVI), a largura do corredor/passagem para os judeus no Muro das Lamentações (Western Wall/Kotel) era de 4 metros. Essa passagem estreita (também chamada de Hosh al-Buraq ou similar) ficava ao longo de uma seção curta do muro (cerca de 28 metros de comprimento para orações), limitada pelos edifícios do Bairro Marroquino (Mughrabi Quarter ou Haret al-Maghariba), ao fundo. Não havia passagem deste bairro para o corredor. O sultão otomano Suleiman, o Magnífico (século XVI), é creditado por ter limpado e aberto esse espaço estreito para permitir o acesso e a oração judaica, após o local ter sido mais restrito ou negligenciado.
Este é um dos pontos mais incompreendidos pelos judeus. Muitos imaginam que as muralhas de Jerusalém que vemos hoje, são as Muralhas de Salomão. Não são. Mas isso é meia verdade. São as Muralhas de Suleiman (que é Salomão na língua turca…) Ele reformou toda a Cidade Velha, reconstruiu as muralhas, emparedou o Portão Dourado. De fato, este é o nome “católico”. Em hebraico é Sha’ar Harahamim, com várias traduções aceitas: Portão da Misericórdia, Portão da Piedade e Portão da Vida Eterna.
Por que isso é relevante? Porque em nossas profecias, os mortos ressuscitados após a chegada do Messias, entrarão em Jerusalém por este portão. O Sultão Suleiman acreditava nisso e não só emparedou o portão como criou um cemitério muçulmano em toda a parte externa, contando que os judeus não passariam por dentro de um cemitério islâmico. Isso está lá desde o início do século XVI. Não me pergunte porque o Sha’ar Harahamim não foi desemparedado em 1967. Pergunte aos rabinos-chefes de Israel.
Portanto Suleiman abriu o corredor para os judeus terem acesso ao Kotel, foi, neste caso, um benfeitor. Anos antes, permitiu aos rabinos cabalistas que fugiram da Espanha e Portugal, se fixarem em Safed, onde seus descendentes permanecem. Suleiman aceitou 50.000 judeus da Península Ibérica que fugiam dos Reis Católicos.
Era um depósito de lixo? Sim, há relatos históricos consistentes de que a área em frente ao Muro foi usada como depósito de lixo durante séculos sob domínio muçulmano árabe (incluindo períodos anteriores e parte inicial do otomano), como forma de humilhação aos judeus. Isso é mencionado em diversas fontes: desde a Idade Média, o local era tratado como um lixão (razão pela qual o portão próximo é chamado Dung Gate em inglês – literalmente Portão do Estrume). No século XVI, Suleiman mandou limpar a área para permitir o acesso. Mesmo depois, o corredor permaneceu estreito e cercado por habitações até após a libertação de Jerusalém pelas tropas de Israel em junho de 1967. Rapidamente o bairro marroquino foi removido por buldozers e corredor se transformou na Praça do Kotel.
Quem vai a Jerusalém já deve ter vistos 3 grandes estrelas de 6 pontas em relevo em pedras do Muro. Todas elas tem algo no centro, que a nossa não tem. Não são nossas, não são judaicas, não são de Salomão ou David. São de Suleiman. Depois eu mostro direitinho.
Por José Roitberg – jornalista e pesquisador







