A grande mudança para a matzá quadrada começou com a Revolução Industrial no século XIX e ´é bem registrada. Diria Tevie, o leiteiro em O Violista no Telhado: “Toda tradição um dia foi novidade”, grande definição de Sholem Aleichem. E esta novidade podemos determinar no tempo e no espaço.
Em 1838, um judeu francês chamado Isaac Singer (não existe foto ou gravura conhecida dele, sem relação com o inventor homônimo da máquina de costura) inventou a primeira máquina para produção de matzá. Ela automatizava principalmente o processo de abrir (rolar) a massa, o que permitia produzir muito mais rápido e dentro do limite rigoroso de 18 minutos (para evitar qualquer risco de fermentação/chametz).
Isaac Singer nasceu e estava na Alsácia-Lorena, área francesa de etnia germânica, e isso uns 60 anos antes de Dreyfus, que também nasceu e cresceu na mesma região. Os imigrantes que fundaram a sinagoga que hoje é Shell Gumilut Hassadim, em Botafogo, RJ, ainda no Império do Brasil, com alvará assinado por D. Pedro II, em sua maioria vieram também da Alsácia-Lorena.

As primeiras máquinas ainda produziam matzá redonda, mas logo ficou claro que o formato quadrado era muito mais prático para a produção industrial: evitava desperdício de massa (não precisava cortar sobras para fazer redondo), facilitava o empilhamento, o embalamento e o transporte em larga escala e aumentava a eficiência e reduzia custos.
Note que ao produzir matza redonda irregular manualmente não há desperdício de massa. Mas quando começa a existir o corte redondo passa a existir as sobras que não podem ser reaproveitadas dentro do tempo de 18 minutos. Numa produção em escala as sobras formarão um volume muito significante.

Foi especialmente com Behr Dov Manischewitz (imigrante da Prússia que abriu uma fábrica em Cincinnati, EUA, em 1888) que a matzá quadrada se popularizou em massa. A popularização se inicia meio século depois da novidade. Ele aperfeiçoou as máquinas, combinando vários processos, e transformou a produção em algo industrial. Provavelmente em 1888, já com maquinas movidas a eletricidade.
(Na imagem principal do post, rabinos e um masguiach (de avental branco) na fábrica em Cincinnati no ano de 1921. A foto foi colorizada e a cor das caixas de matzá é exatamente a daquela época histórica – foto original do arquivo The Oster Visual Documentation Center, ANU – Museum of the Jewish People)
A Manischewitz se tornou a marca mais famosa de matzá quadrada e crocante dos EUA.
A partir do final do século XIX e início do XX, a matzá quadrada fabricada por máquina se espalhou pelo mundo, especialmente entre as comunidades ashkenazitas, e hoje é o formato padrão encontrado nos supermercados e delis.
Curiosidades importantes:
A matzá shmurá (a mais rigorosa, vigiada para o trigo não ter contato com água desde a colheita) continua sendo feita à mão e geralmente redonda, exatamente como era na antiguidade, para preservar a tradição mais fiel possível. Existem processos industriais para fazer matzá redonda. Então, se for absolutamente redonda, é industrial. Se for irregular é de produção manual artesanal.
Houve muita controvérsia rabínica no século XIX sobre o uso de máquinas (alguns rabinos temiam que a massa ficasse presa nas engrenagens e fermentasse, ou que a produção mecanizada comprometesse a santidade do processo). O formato quadrado foi até incentivado por alguns rabinos justamente para resolver problemas práticos da máquina.
Na Enciclopédia Judaica de 1906, primeira edição, compilada e publicada em NY, não há qualquer referência a matzá quadrada, Singer ou Manischewitz, mesmo que a fábrica nos EUA já funcionasse há 19 anos. Isso nos mostra que cerca de meio século após a invenção da maquina e da criação da matzá quadrada, a disseminação pelo mundo judaica ainda era pequena. Sabemos que em 1903 alguém construiu ou importou uma máquina para Buenos Aires e a matzá quadrada importada era anunciada nos jornais da capital, Rio de Janeiro.
Resumindo: a matzá quadrada é uma invenção moderna do final do século XIX, resultado da industrialização e da necessidade de produção em escala. Antes disso, por mais de 3.000 anos, a matzá era redonda ou irregular e artesanal.
Controvérsia haláchica das máquinas para fazer matzá
Até o século XIX, a matzá era sempre feita à mão, como era prática desde a época do Êxodo. Em 1838, na França, Isaac Singer inventou a primeira máquina para produção de matzá. A máquina acelerava o processo de amassar, abrir e, mais tarde, cortar a massa, permitindo produzir grandes quantidades rapidamente — algo muito útil para comunidades grandes e pobres.
Quando a máquina chegou à Europa Oriental (especialmente Galícia, hoje Ucrânia/Polônia) por volta de 1857–1859, explodiu uma das maiores polêmicas haláchicas do século XIX. Rabinos de peso se dividiram entre permitir e proibir o uso da máquina para matzá de Pessach (não para a matzá de uso diário).
Principais argumentos dos que PROIBIRAM (ou foram muito rigorosos)
Os opositores mais famosos foram:
-
Rabino Shlomo Kluger (o “Maggid de Brody”, 1785–1869) — ele foi o principal opositor. Em 1859 publicou o livro Moda’ah LeBeit Yisrael, reunindo tesuvot (respostas) contra a máquina
-
Rabino Yitzchak Meir Alter (o primeiro Rebe de Gur)
-
Rabino Chaim Halberstam de Sanz (o Divrei Chaim)
-
Outros grandes rabinos chassídicos da Galícia e alguns lituanos.
Principais preocupações haláchicas:
-
Risco de chametz (fermentação)
A máquina tinha muitas engrenagens, rodas, correias e cantos pequenos. Seria praticamente impossível limpá-la perfeitamente entre cada lote. Restos de massa poderiam ficar presos por mais de 18 minutos (o tempo máximo permitido para que a massa não comece a fermentar). Esses restos poderiam contaminar a nova massa, tornando a matzá chametz (proibida em Pessach). -
Falta de “Lishma” (intenção para a mitzvá)A matzá que se come na primeira noite de Pessach (no Sêder) precisa ser feita “lechem oni” com intenção específica para a mitzvá. Uma máquina não tem intenção. Alguns rabinos argumentavam que só uma pessoa pode ter kavaná (intenção) — a máquina não pode. Isso faz todo o sentido.
-
Aspecto social e econômicoA máquina tirava o sustento de centenas de mulheres pobres, viúvas e órfãs que tradicionalmente ganhavam a vida assando matzá à mão antes de Pessach. Proibir a máquina era também uma forma de proteger os mais necessitados.
-
Tradição e KabbalahAlguns mencionavam que a matzá tradicional era redonda, e a inovação mecânica ia contra o costume ancestral. Havia também quem visse na máquina um símbolo perigoso de modernização excessiva (“mecânica” no lugar do humano)
-
Alguns opositores chegaram a dizer que a matzá de máquina era “como chametz” ou até pior que pão comum em certos aspectos.
Principais argumentos dos que PERMITIRAM (e até preferiram)
Os defensores mais importantes foram:
-
Rabino Yosef Shaul Nathanson de Lemberg (Lvov) — autor de Sho’el U’Meishiv. Ele respondeu duramente ao Rabino Kluger, dizendo que os argumentos contra eram exagerados.
-
Rabino Avraham Shmuel Binyamin Sofer (o Ktav Sofer)
-
Rabino Yaakov Ettlinger (o Aruch LaNer)
-
Mais tarde, muitos rabinos lituanos, de Jerusalém e sefaradim também aceitaram.
Argumentos a favor:
-
Melhor controle contra chametz
A máquina permitia produzir matzá mais rápido e de forma mais uniforme. Com supervisão rabínica adequada (mashgiach presente o tempo todo), era possível garantir que a massa nunca passasse de 18 minutos. Na prática, era até mais seguro que o trabalho manual, onde cansaço ou erro humano podiam atrasar o processo. -
Limpeza viávelCom as máquinas bem projetadas e limpezas rigorosas entre os lotes, o risco de resíduos era mínimo ou inexistente.
-
Qualidade e acessibilidadeA matzá de máquina era mais fina, uniforme, crocante e barata. Isso permitia que famílias pobres tivessem matzá de qualidade em quantidade suficiente.
-
Intenção da mitzváA intenção (lishma) pode ser feita pelo judeu que supervisiona ou encomenda a produção. A máquina é apenas uma ferramenta, como um rolo de abrir massa ou um forno — não anula a intenção do ser humano.
Com o tempo, a maioria das comunidades ashkenazitas (especialmente nos EUA e Europa Ocidental) adotou a matzá de máquina. A fábrica de Behr Manischewitz (fundada em 1888 em Cincinnati) aperfeiçoou o processo e ajudou a popularizar o formato quadrado.
Um local ótimo para observar o quanto tempo demorou a difusão e popularização da matzá quadrada é procurarmos na Enciclopédia Judaica de 1906 (primeira edição) e não encontrarmos menção, nem à Singer, nem à matzá quadrada ou a Manishevsky, mesmo que a fábrica já funcionasse nos EUA por 18 anos, sendo a maior do mundo. Sabemos em por volta de 1903 havia uma fábrica em Buenos Aires e a matzá quadrada era importada para o Rio de Janeiro.
Situação atual (2026)
-
Matzá comum (a quadrada industrial que se compra no supermercado) → quase todo mundo usa, inclusive grande parte dos chassídicos hoje em dia. A grande maioria dos poskim (eruditos em leis da Halachá) aceita.
-
Matzá Shmurá (a mais rigorosa, vigiada desde a colheita do trigo) → grande parte ainda é feita à mão e redonda, especialmente para a mitzvá do Sêder. Muitos que são stringent (machmir) preferem matzá shmurá feita manualmente.
-
Algumas fábricas hoje usam máquinas modernas com supervisão muito rigorosa, e até matzá shmurá é produzida mecanicamente em certos lugares (com debate, uns aceitam, como o Chabad que as distribuiu no mundo inteiro e outros não aceitam).
A controvérsia mostra como o judaísmo equilibra tradição, halachá rigorosa, realidade prática e preocupação com o próximo. Foi um dos grandes debates entre “conservadores” e “modernizadores” dentro do mundo ortodoxo do século XIX.

Por José Roitberg – jornalista e pesquisador









