Quando e como surgiu a matzá quadrada?

A grande mudança para a matzá quadrada começou com a Revolução Industrial no século XIX e ´é bem registrada. Diria Tevie, o leiteiro em O Violista no Telhado: “Toda tradição um dia foi novidade”, grande definição de Sholem Aleichem. E esta novidade podemos determinar no tempo e no espaço.

Em 1838, um judeu francês chamado Isaac Singer (não existe foto ou gravura conhecida dele, sem relação com o inventor homônimo da máquina de costura) inventou a primeira máquina para produção de matzá. Ela automatizava principalmente o processo de abrir (rolar) a massa, o que permitia produzir muito mais rápido e dentro do limite rigoroso de 18 minutos (para evitar qualquer risco de fermentação/chametz).

Isaac Singer nasceu e estava na Alsácia-Lorena, área francesa de etnia germânica, e isso uns 60 anos antes de Dreyfus, que também nasceu e cresceu na mesma região. Os imigrantes que fundaram a sinagoga que hoje é Shell Gumilut Hassadim, em Botafogo, RJ, ainda no Império do Brasil, com alvará assinado por D. Pedro II, em sua maioria vieram também da Alsácia-Lorena.

x A crude drawing of an early Matzoh machine. 1855 Likud Brasil
1855 – é a imagem mais antiga encontrada de uma maquina, ainda manual, de fabricar matzá redonda, num anúncio de jornal da Padaria Cohen em Nova Iorque – original do arquivo The Oster Visual Documentation Center, ANU – Museum of the Jewish People.

As primeiras máquinas ainda produziam matzá redonda, mas logo ficou claro que o formato quadrado era muito mais prático para a produção industrial: evitava desperdício de massa (não precisava cortar sobras para fazer redondo), facilitava o empilhamento, o embalamento e o transporte em larga escala e aumentava a eficiência e reduzia custos.

Note que ao produzir matza redonda irregular manualmente não há desperdício de massa. Mas quando começa a existir o corte redondo passa a existir as sobras que não podem ser reaproveitadas dentro do tempo de 18 minutos. Numa produção em escala as sobras formarão um volume muito significante.

x DovBehrManischewitz colorized Likud Brasil
Behr Dov Manischewitz z’l (1857-1914) em foto colorizada de 1910 – original na Biblioteca do Congresso dos EUA.

Foi especialmente com Behr Dov Manischewitz (imigrante da Prússia que abriu uma fábrica em Cincinnati, EUA, em 1888) que a matzá quadrada se popularizou em massa. A popularização se inicia meio século depois da novidade. Ele aperfeiçoou as máquinas, combinando vários processos, e transformou a produção em algo industrial. Provavelmente em 1888, já com maquinas movidas a eletricidade.

(Na imagem principal do post, rabinos e um masguiach (de avental branco) na fábrica em Cincinnati no ano de 1921. A foto foi colorizada e a cor das caixas de matzá é exatamente a daquela época histórica – foto original do arquivo The Oster Visual Documentation Center, ANU – Museum of the Jewish People)

A Manischewitz se tornou a marca mais famosa de matzá quadrada e crocante dos EUA.

A partir do final do século XIX e início do XX, a matzá quadrada fabricada por máquina se espalhou pelo mundo, especialmente entre as comunidades ashkenazitas, e hoje é o formato padrão encontrado nos supermercados e delis.

Curiosidades importantes:

A matzá shmurá (a mais rigorosa, vigiada para o trigo não ter contato com água desde a colheita) continua sendo feita à mão e geralmente redonda, exatamente como era na antiguidade, para preservar a tradição mais fiel possível. Existem processos industriais para fazer matzá redonda. Então, se for absolutamente redonda, é industrial. Se for irregular é de produção manual artesanal.

Houve muita controvérsia rabínica no século XIX sobre o uso de máquinas (alguns rabinos temiam que a massa ficasse presa nas engrenagens e fermentasse, ou que a produção mecanizada comprometesse a santidade do processo). O formato quadrado foi até incentivado por alguns rabinos justamente para resolver problemas práticos da máquina.

Na Enciclopédia Judaica de 1906, primeira edição, compilada e publicada em NY, não há qualquer referência a matzá quadrada, Singer ou Manischewitz, mesmo que a fábrica nos EUA já funcionasse há 19 anos. Isso nos mostra que cerca de meio século após a invenção da maquina e da criação da matzá quadrada, a disseminação pelo mundo judaica ainda era pequena. Sabemos que em 1903 alguém construiu ou importou uma máquina para Buenos Aires e a matzá quadrada importada era anunciada nos jornais da capital, Rio de Janeiro.

Resumindo: a matzá quadrada é uma invenção moderna do final do século XIX, resultado da industrialização e da necessidade de produção em escala. Antes disso, por mais de 3.000 anos, a matzá era redonda ou irregular e artesanal.

Controvérsia haláchica das máquinas para fazer matzá

Até o século XIX, a matzá era sempre feita à mão, como era prática desde a época do Êxodo. Em 1838, na França, Isaac Singer inventou a primeira máquina para produção de matzá. A máquina acelerava o processo de amassar, abrir e, mais tarde, cortar a massa, permitindo produzir grandes quantidades rapidamente — algo muito útil para comunidades grandes e pobres.

Quando a máquina chegou à Europa Oriental (especialmente Galícia, hoje Ucrânia/Polônia) por volta de 1857–1859, explodiu uma das maiores polêmicas haláchicas do século XIX. Rabinos de peso se dividiram entre permitir e proibir o uso da máquina para matzá de Pessach (não para a matzá de uso diário).

Principais argumentos dos que PROIBIRAM (ou foram muito rigorosos)

Os opositores mais famosos foram:

  • Rabino Shlomo Kluger (o “Maggid de Brody”, 1785–1869) — ele foi o principal opositor. Em 1859 publicou o livro Moda’ah LeBeit Yisrael, reunindo tesuvot (respostas) contra a máquina

  • Rabino Yitzchak Meir Alter (o primeiro Rebe de Gur)

  • Rabino Chaim Halberstam de Sanz (o Divrei Chaim)

  • Outros grandes rabinos chassídicos da Galícia e alguns lituanos.

Principais preocupações haláchicas:

  1. Risco de chametz (fermentação)
    A máquina tinha muitas engrenagens, rodas, correias e cantos pequenos. Seria praticamente impossível limpá-la perfeitamente entre cada lote. Restos de massa poderiam ficar presos por mais de 18 minutos (o tempo máximo permitido para que a massa não comece a fermentar). Esses restos poderiam contaminar a nova massa, tornando a matzá chametz (proibida em Pessach).

  2. Falta de “Lishma” (intenção para a mitzvá)A matzá que se come na primeira noite de Pessach (no Sêder) precisa ser feita “lechem oni” com intenção específica para a mitzvá. Uma máquina não tem intenção. Alguns rabinos argumentavam que só uma pessoa pode ter kavaná (intenção) — a máquina não pode. Isso faz todo o sentido.

  3. Aspecto social e econômicoA máquina tirava o sustento de centenas de mulheres pobres, viúvas e órfãs que tradicionalmente ganhavam a vida assando matzá à mão antes de Pessach. Proibir a máquina era também uma forma de proteger os mais necessitados.

  4. Tradição e KabbalahAlguns mencionavam que a matzá tradicional era redonda, e a inovação mecânica ia contra o costume ancestral. Havia também quem visse na máquina um símbolo perigoso de modernização excessiva (“mecânica” no lugar do humano)

  5. Alguns opositores chegaram a dizer que a matzá de máquina era “como chametz” ou até pior que pão comum em certos aspectos.

Principais argumentos dos que PERMITIRAM (e até preferiram)

Os defensores mais importantes foram:

  • Rabino Yosef Shaul Nathanson de Lemberg (Lvov) — autor de Sho’el U’Meishiv. Ele respondeu duramente ao Rabino Kluger, dizendo que os argumentos contra eram exagerados.

  • Rabino Avraham Shmuel Binyamin Sofer (o Ktav Sofer)

  • Rabino Yaakov Ettlinger (o Aruch LaNer)

  • Mais tarde, muitos rabinos lituanos, de Jerusalém e sefaradim também aceitaram.

Argumentos a favor:

  1. Melhor controle contra chametz
    A máquina permitia produzir matzá mais rápido e de forma mais uniforme. Com supervisão rabínica adequada (mashgiach presente o tempo todo), era possível garantir que a massa nunca passasse de 18 minutos. Na prática, era até mais seguro que o trabalho manual, onde cansaço ou erro humano podiam atrasar o processo.

  2. Limpeza viávelCom as máquinas bem projetadas e limpezas rigorosas entre os lotes, o risco de resíduos era mínimo ou inexistente.

  3. Qualidade e acessibilidadeA matzá de máquina era mais fina, uniforme, crocante e barata. Isso permitia que famílias pobres tivessem matzá de qualidade em quantidade suficiente.

  4. Intenção da mitzváA intenção (lishma) pode ser feita pelo judeu que supervisiona ou encomenda a produção. A máquina é apenas uma ferramenta, como um rolo de abrir massa ou um forno — não anula a intenção do ser humano.

Com o tempo, a maioria das comunidades ashkenazitas (especialmente nos EUA e Europa Ocidental) adotou a matzá de máquina. A fábrica de Behr Manischewitz (fundada em 1888 em Cincinnati) aperfeiçoou o processo e ajudou a popularizar o formato quadrado.

Um local ótimo para observar o quanto tempo demorou a difusão e popularização da matzá quadrada é procurarmos na Enciclopédia Judaica de 1906 (primeira edição) e não encontrarmos menção, nem à Singer, nem à matzá quadrada ou a Manishevsky, mesmo que a fábrica já funcionasse nos EUA por 18 anos, sendo a maior do mundo. Sabemos em por volta de 1903 havia uma fábrica em Buenos Aires e a matzá quadrada era importada para o Rio de Janeiro.

Situação atual (2026)

  • Matzá comum (a quadrada industrial que se compra no supermercado) → quase todo mundo usa, inclusive grande parte dos chassídicos hoje em dia. A grande maioria dos poskim (eruditos em leis da Halachá) aceita.

  • Matzá Shmurá (a mais rigorosa, vigiada desde a colheita do trigo) → grande parte ainda é feita à mão e redonda, especialmente para a mitzvá do Sêder. Muitos que são stringent (machmir) preferem matzá shmurá feita manualmente.

  • Algumas fábricas hoje usam máquinas modernas com supervisão muito rigorosa, e até matzá shmurá é produzida mecanicamente em certos lugares (com debate, uns aceitam, como o Chabad que as distribuiu no mundo inteiro e outros não aceitam).

A controvérsia mostra como o judaísmo equilibra tradição, halachá rigorosa, realidade prática e preocupação com o próximo. Foi um dos grandes debates entre “conservadores” e “modernizadores” dentro do mundo ortodoxo do século XIX.

x Baking Matzot for Passover under rabbinical supervision. New York USA 1950s. The Oster Visual Documentation Center ANU – Museum of the Jewish People Likud Brasil
1950 – fabricando matzá kosher le pessach sob supervisão rabinical na fábrica da Manischewitz – original do arquivo The Oster Visual Documentation Center, ANU – Museum of the Jewish People

 

Por José Roitberg – jornalista e pesquisador

 

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