Uma Visão Não Convencional sobre o Irã O Zumbi Geopolítico que Teme a Paz Mais que a Guerra

O Irã de hoje caminha como um morto-vivo. Seria então o Irã o zumbi geopolítico?

Olhos vidrados pela adrenalina da batalha, corpo crivado de feridas que ainda não doem, mas que vão explodir em agonia no exato instante em que o tiroteio silenciar.

Enquanto o Ocidente conta vitórias táticas e discute desafios estratégicos, uma verdade mais sombria emerge: a República Islâmica não está vencendo a guerra. Ela está apenas devorando o próprio país para continuar existindo.

O paradoxo é brutal. Mesmo que o regime sobreviva, permaneça no poder e declare vitória, ninguém sobrou para comemorar. No ritmo implacável das eliminações israelenses, só os porteiros da IRGC vão sobrar para erguer a taça. O resto do Irã estará em ruínas.

O povo iraniano vive preso na armadilha mais cruel possível: odeia o regime com fúria acumulada há décadas, mas assiste horrorizado enquanto mísseis destroem estradas, refinarias, hospitais e o último fiapo de economia. A diáspora e os iranianos dentro do país torcem pela queda dos aiatolás, mas não ao preço de transformar o Irã numa cratera fumegante. É odiar o carrasco e, ao mesmo tempo, temer pela vida do refém. O refém é o próprio país.

Aqui desmorona toda narrativa ocidental simplista: o regime não está se saindo bem. Está apenas adiando o inevitável com fúria animal. Não tem Plano B. Não tem futuro. Sabe que no fim da estrada só existe o abismo. Por isso luta como quem não tem nada a perder, e, paradoxalmente, tem tudo.

O regime não teme a guerra. Teme a paz.

Enquanto as bombas caem, ele tem justificativa para tudo: toque de recolher, censura total, prisões em massa, execuções sumárias. A adrenalina da sobrevivência mantém o corpo em pé. Mas quando as sirenes calarem e a poeira baixar, o que resta?

Uma economia em colapso total, escassez crônica de água, uma moeda que virou papel higiênico, soldados sem soldo há meses e um ódio popular que a repressão anterior não matou, apenas fermentou.

É como um homem gravemente ferido que corre gritando na direção do inimigo. Enquanto corre, não sente a dor. Quando parar, desaba.

O suposto “comando descentralizado” que tanto impressiona analistas ocidentais não é genialidade. É colapso central disfarçado. Comandantes locais disparam mísseis por conta própria, alguns caem em Omã, outros na Turquia, outros no Cáucaso. Caos puro, maquiado de estratégia.

Nas ruas, meio milhão de homens armados em alerta máximo. O inimigo que eles realmente temem não vem do céu. Vem da calçada.

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Cartaz oficial de recrutamento militar para meninos e meninas a partir de 12 anos de idade no Irã

O sinal mais sombrio de todos? O recrutamento de crianças de 12 e 13 anos para as milícias Basij. Quando um regime manda crianças para a morte, não demonstra força. Demonstra pânico puro.

Economicamente, o Estado já entrou em queda livre: imprime notas de dez milhões de riais, não consegue pagar seus soldados, a administração virou ficção. Ainda assim, os líderes em Teerã, embriagados pelos likes de indignação ocidental, acreditam que estão segurando a economia global como refém. Delírio terminal.

Este era o momento exato para sentar à mesa com Trump e negociar. A arrogância os impede. Preferem resistir até o último fio de cabelo e o último rial.

O barril de pólvora social continua intacto. A repressão brutal do ano passado não pacificou ninguém, só aprofundou o ódio. Se os B-52 americanos degradarem minimamente a máquina de repressão, meio milhão de homens tentarão controlar 92 milhões de habitantes que os desprezam num país do tamanho da Europa Ocidental. A rebelião será inevitável. A história iraniana é feita de revoltas. O povo nunca se curvou de verdade.

A República Islâmica hoje é um zumbi geopolítico. Anestesiada pela guerra, dopada pela própria propaganda, caminha para o precipício achando que está dançando. Cada míssil lançado, cada criança recrutada, cada nota de dez milhões de riais impressa é mais um prego no caixão da nação iraniana, tudo para manter vivo um regime que já não tem mais como se salvar.

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Nova nota iraniana de 10 milhões de rials lançada poucos dias atrás, durante a guerra. Imagem de divulgação ag. Tasnin.

Quando a poeira dos bombardeios finalmente assentar e o silêncio da paz chegar, o mundo vai descobrir o que já se desenha há muito tempo: o verdadeiro apocalipse dos aiatolás não virá dos céus, carregado por mísseis americanos. Virá das ruas. Das mãos de um povo que, depois de tudo, não terá mais nada a perder.

E nesse dia, o regime descobrirá, tarde demais, que a guerra era o paraíso comparado ao inferno da paz.

A tempestade perfeita está formada.

Independente do que vier, mesmo que por algum milagre sombrio o regime consiga sobreviver por tempo indefinido à surra israelense e americana, uma verdade já pode ser cravada: o Irã de 1979 morreu em 2026.

A revolução islâmica que Khomeini pariu em 1979, que Khamenei manteve viva com ferro e fogo por quatro décadas, que exportou terror, que sonhou com o califado xiita e que se imaginava imortal, está morta e enterrada. Seus pilares ideológicos ruíram, seu eixo de resistência virou pó, sua economia virou cinza e sua aura de invencibilidade evaporou para sempre. O Irã que emergiu das ruas em 1979 não existe mais.

Ainda não está claro o que vai nascer no lugar. Estamos no meio do caos e do fog of war. Mas uma coisa é certa: o Irã temido de Khomeini e Khamenei não existe mais.

Se ainda resta alguma dúvida sobre quem realmente venceu este conflito, basta olhar para o Irã que vai emergir dele e compará-lo com o Irã de 6 de outubro de 2023. A resposta ficará cristalina.

Por Ipad Asher – analista político
Imagem ilustrativa criada por IA

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